A HERANÇA ABRAÂMICA

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(A HERANÇA ABRAÂMICA) Seu verdadeiro significado como plano divino.

                                                       Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”
Por Ahmed Ismail  Introdução

A missão profética de Abraão (A.S.) e a promessa redentora de abrangência universal contida em sua saga é interpretada de modo diverso pelas três tradições religiosas que se desenvolveram a partir da sua mensagem monoteísta. O objetivo deste trabalho é analisar as bases de argumentação e lançar luz sobre as contradições que contribuem para uma distorcida compreensão da essência da herança de Abraão (A.S.) presente tanto na reivindicação exclusivista do judaísmo quanto na visão cristã, produzida tardiamente a partir das interpretações teológicas do clero romano.
Parte 1 – O Judaísmo e a herança Abraâmica
O argumento histórico das origens do povo hebreu confunde-se na tradição judaica com uma interpretação radicalmente etnocêntrica que reivindica a herança abraâmica não com base no que Deus Altíssimo anunciou a Abraão (A.S.) (uma eterna aliança fundamentada na fé monoteísta) mas sim, sobre um conceito que mescla fé e direito hereditário. Com exceção das seitas ultra-ortodoxas este “direito” é reconhecido até para o “Lo Dati” (não-praticante) judeu. Portanto, o caráter de nação ou elo sanguíneo é colocado no mesmo grau de importância do que a herança espiritual da fé (e mesmo para muitos judeus, o supera). A crença judaica nesta “condição natural” e exclusiva de herdeiros de Abraão (A.S.) se fundamenta no livro de Gênesis, o primeiro dos cinco livros que compõem a Lei (Torá) (ou o que na versão grega é denominado de Pentateuco).
A ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O LIVRO DE GÊNESIS
Como é sabido, Gênesis contém uma narrativa inicial que resume a história das origens do universo e do homem e cujas informações remetem a tradições anteriores a hebraica (babilônica e egipícia) sobre o período pré-diluviano, diluviano e o repovoamento. Os primeiros onze capítulos apresentam pois esta narrativa resumida da saga humana em seus primórdios. Em sua Segunda parte (do capítulo 12 em diante) é apresentada a história de Abraão (A.S.), de Isaac (A.S.) e Jacó (A.S.), ou seja, os patriarcas do povo hebreu. As questões que trataremos neste trabalho exigem uma prévia análise crítica sobre o Livro de Gênesis e sua história. As tentativas de estabelecer uma idade cronológica a partir das informações constantes em Gênesis resultaram em discrepâncias e cálculos absurdos. A antropologia moderna parece ter posto por terra qualquer possibilidade de precisão por esse método. Os três textos que chegaram até nossos dias (hebraico, samaritano e grego) divergem entre si nas cifras apresentadas no capítulo 5 e 11. A precisão, que não é requerida por muitos, seria por si só um argumento a favor de uma fidelidade do texto atual aos originais. A existência de três textos independentes e de cópias não concordantes deve ser considerada quando se pretende sustentar esta ou aquela verdade incontestável.
De fato, o que chegou até nossos dias como fontes da Torah são: o texto samaritano (que apresenta 6000 variantes com respeito ao texto consonântico, sendo que 2000 delas são variantes do sentido do texto), o papiro Nash (provavelmente do séc.I ou II d.c.), O Codex Severi (com uma lista de 32 variantes), o codex Hillel (600 d.c.), a versão grega (septuaginta), algumas outras versões e a Vulgata latina do séc. V Como vemos, não existe qualquer documento da época em que tenha sido composto em sua forma original. Pretendeu-se ver uma mudança desse incômodo histórico com a descoberta dos Manuscritos do mar Morto em 1947, todavia, as contradições e marcantes diferenças com o texto das versões antigas, as omissões e adições não demonstram possível estabelecer uma relação confiável entre tais manuscritos e os originais.
Quanto ao livro de Gênesis especificamente, a própria Igreja admite por hipótese que o texto sofreu modificações na forma durante a transmissão chegando a receber, duas formas um tanto diferentes. Mais tarde, um redator fundiu-as extraindo ora de uma ou de outra, muitas vezes com justaposições, “sem alterar as feições próprias de cada uma”. Ainda que com esta última ressalva, é admitida a forte possibilidade da mão do homem ter maculado o que é aceito como sendo “palavras de inspiração divina”.
A AUTORIA DO TEXTO
Chegamos a uma questão controversa que no decorrer dos séculos suscitou debates entre estudiosos e teses divergentes: a autoria de Gênesis. Os judeus e a tradição da igreja atribuem o texto de gênesis e dos quatro livros seguintes que compõem a lei ao Profeta Moisés (A.S.). Entretanto a análise documentária levada a cabo por estudiosos de várias tendências distingue quatro fontes (ou mais) de cuja fusão teria resultado o atual pentateuco. Para o livro de Gênesis aceita-se a possibilidade de dois narradores denominados pelo uso diferenciado do Nome de Deus como um Javista, e outro de Eloísta. A igreja aceita como hipótese que fontes diversas tenham sido consultadas para a composição original, devido a diversidade de linguagem e estilo. De qualquer modo, as teses se confrontam sobremaneira e não há qualquer prova categórica que o texto atual de Gênesis ou dos demais livros da Lei sejam de autoria do próprio punho de Moisés (A.S.).
Os críticos e estudiosos apontam a existência de duas versões que foram combinadas no reinado de Hezequiah (727-697 a . c.) e a promulgação de um novo código em 622 a.c. no reinado de Josias por um grupo de escribas e sacerdotes e novamente uma compilação de Ezequias (575 a .c.) o que afirma a “lei” tal como é conhecida em nossos dias como o resultado de diversas tentativas de remontar o que havia se perdido (isto sim, o que havia sido revelado a Moisés(A.S.)). Um desses críticos, Renan, em seu livro “História do Povo de Israel” comenta que “a constituição definitiva do judaísmo pode ser datada somente do tempo de Ezra” (457 a.c.). Diante das provas e evidências históricas de todo esse processo contínuo de interpolações, acréscimos e omissões; apesar de insistir na “autoria de Moisés” a Igreja Romana reconhece, como consta na introdução ao pentateuco da 42o-edição bíblica (trad. Padre Matos Soares) o seguinte: “Um ou outro acréscimo ou modificação pode ter –se introduzido com o tempo nas leis mosaicas sem derrogar ou diminuir a paternidade de Moisés do pentateuco.”
Esta afirmação comporta em si um paradoxo bastante estranho: ou se admite que o texto tenha sido maculado pela palavra do homem e sendo assim não pode ser tomado como palavra de inspiração divina incontestável ou se afirma a autoria de Moisés sob inspiração divina, uma hipótese elimina a outra. O que nos parece evidente é que diante da impossibilidade de se assegurar ou provar a fidelidade do texto e sua incorruptibilidade recorreu-se a este sofisma.
O TEMA DAS CONTRADIÇÕES E DOS ERROS HISTÓRICOS
A palavra “contradição” no contexto em que esse trabalho apresenta adquire extrema importância porque o que aqui se pretende é lançar luz a fatos e crenças a partir de uma “refutação do texto pelo texto”.
O livro de Gênesis tal como chegou ao nosso tempo não está livre da mesma gama de contradições e erros históricos que se verificam em todo o velho testamento. O problema tem sido colocado em destaque nos meios teológicos cristãos e tem erguido oposições de grupos de estudiosos há muito tempo. Esta polêmica se intensificou consideravelmente a medida que os conhecimentos científicos modernos se incompatibilizavam com certas passagens bíblicas. Antes mesmo que as questões científicas colocassem em evidência erros históricos e contradições inaceitáveis, Santo Agostinho, considerando que Deus não poderia ensinar aos homens o que não correspondia à realidade, formulou o princípio da impossibilidade de uma afirmação contrária a verdade ter origem divina, e chegou mesmo a mostrar–se disposto a excluir dos textos o que denotava erro ou contradição. Mais tarde, muitos apologistas se empenharam em reivindicar a conservação do texto bíblico contra tudo e contra todos, em absoluta recusa a razão.
O concílio vaticano II por fim reconheceu e declarou “esses livros (o velho testamento), embora contenham aspectos imperfeitos e caducos, são no entanto, uma verdadeira pedagogia divina.”
Para nós, a importância dos comentários acima reside em reiterar como princípio de nossa análise o fato de que em se reconhecendo a possibilidade da intervenção humana e se reconhecendo a existência de erros e contradições não se pode tomar como verdade incontestável quaisquer informações constantes no mesmo; especialmente aquelas que são confrontadas pelo próprio texto ou pela lógica e a razão. Como é de especial relevância para o objetivo desta análise nos ateremos ao estudo minucioso do que consta no Livro de Gênesis, recorrendo também a algumas passagens dos demais livros da lei judaica.
GÊNESIS E A HERANÇA REIVINDICADA PELOS ISRAELITAS
Considerando pois os fatores destacados até aqui em relação ao texto de gênesis, a saber:
1 – A inexistência nos dias atuais de nenhum texto da época da sua composição.
2 – A inexistência de nenhuma prova concreta que estabeleça e comprove a autoria do texto a Moisés (A.S.).
3 – As provas históricas da intervenção de escribas , sacerdotes e copistas em passagens do texto.
Podemos então analisar e comparar a interpretação judaica a fim de estabelecer sua concordância em relação ao texto.
A PROMESSA FEITA A ABRAÃO (A.S.)
A promessa feita a Abraão (A.S.) por Deus enunciada em Gen.12 v.3 “e em ti serão benditas todas as nações da terra.” Ao que Deus Altíssimo acrescenta em Gen. 12: 7 “Eu darei esta terra aos teus descendentes” Reiterada em Gen.13:15 “Toda a terra que vês, eu darei para sempre a tua posteridade” ocorre antes de que Abraão tivesse qualquer descendente. Não se encontra até este ponto qualquer condição prévia que se permita afirmar um direito particular deste ou daquele povo. A primeira referência à palavra “aliança” surge no cap. 15 v.18 “Naquele dia, fez o Senhor aliança com Abrão dizendo: Darei à tua descendência esta terra…” Note-se que a promessa tornou-se uma aliança ainda antes de que qualquer descendente viesse ao mundo. Nenhuma condição de exclusão ou de exclusividade foi expressa. Ora, qualquer acordo ou contrato por mais insignificante que seja exige que possíveis cláusulas ou condições especiais sejam detalhadas no ato de sua realização. No cap.16 v.15/16 consta: “E agar deu a luz um filho a Abrão o qual lhe pôs o nome de Ismael. Tinha Abrão oitenta e seis anos, quando Agar lhe deu a luz Ismael.” Novamente, a aliança de Deus com Abrão é reiterada quando este tinha segundo Gênesis, 99 anos. O capítulo 17 inteiro trata detalhadamente desta aliança, na qual Deus estabelece como sinal de um pacto eterno a circuncisão (v.10 a 14). Note-se que:
1 – Ismael (A.S.) foi circuncidado (o que o inclui neste pacto) “Tinha Abraão noventa e nove anos quando se circuncidou. E Ismael seu filho, tinha treze anos completos, quando foi circuncidado.”
2 – Isaac (A.S.) ainda não havia nascido.

Dois outros fatos importantes são citados neste capítulo:
1 – A mudança do nome de Abrão para Abraão (A.S.) (o que denota o caráter universal do plano divino a ser compreendido por “sua descendência”).
2 – O anúncio do nascimento de Isaac (A.S.) e o anúncio de um pacto com ele, da parte de Deus (V. 19 a 21).
Um ponto a se destacar aqui é que há uma aliança abraâmica e um pacto com Isaac (A.S.). Dois concertos distintos que têm sido entendidos erroneamente como uma única coisa. A aliança Abraâmica constituída antes do nascimento de Isaac (A.S.) e um concerto específico com este. O nascimento de Isaac (A.S.) deu-se quando Abraão (A.S.) tinha cem anos segundo Gênesis. A partir daí o texto apresenta disposições contraditórias quanto ao próprio sentido de justiça divina (o que pressupõe coerência) e quanto às próprias disposições da Lei quanto ao direito de primogenitura. A reivindicação judaica de “única descendência de Abraão” a qual se apóia em passagens que encontramos nos capítulos seguintes , para que seja aceita como tal necessita de duas imposições que desafiam a justiça divina e a razão humana:
1 – Que um filho legítimo deixe de ser filho.
2 – Que perca o direito de primogenitura e seja por conseguinte, deserdado.
Dirão alguns, “o filho da escrava”. O próprio texto que consideram de inspiração divina responde em Deuteronômio c.21 15 a 17: “Quando um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama, outra a quem aborrece, e tiverem (ambas) tido filhos dele, e o filho da que ele aborrece for o primogênito, e ele quiser repartir os seus bens entre os seus filhos, não poderá fazer seu primogênito o filho daquela a quem ama e preferi-lo ao filho da que ele aborrece, mas reconhecerá por primogênito o filho da que ele aborrece, e dar-lhe-á uma porção dupla de tudo o que tem; porque este é o primeiro de seus filhos e a ele pertence o direito de primogenitura.” Portanto, ou se pretende dizer que Deus contradiz sua própria lei (Exaltado seja Deus que não erra e não se esquece), ordenando a Abraão (A.S.) obrar a injustiça ou, a pretensão judaica se apóia numa flagrante adulteração dos textos. Adulteração esta que se confronta mesmo com a lógica quando em certas passagens faz-se menção a Isaac (A.S.) como “único filho” como veremos adiante. De qualquer modo, como o próprio texto bíblico afirma o filho legítimo é sempre filho legítimo, não importando se foi gerado pela serva ou pela senhora. Se mesmo as leis humanas garantem essa condição por que a Lei de Deus seria diferente?
Tal é a malícia subjacente em algumas passagens seguintes que após a exigência de Sara no cap.21:10 “Expulsa esta escrava e o seu filho, porque o filho da escrava não há de ser herdeiro com meu filho Isaac” Ismael já não é chamado de filho de Abraão (A.S.) mas de “filho da escrava”. Daí em diante a contradição neste tema se expõe numa mescla confusa de afirmações.
No polêmico versículo do sacrifício consta que Deus teria dito: “Toma Isaac, teu único filho … (22:2) repetindo-se a expressão “teu único filho” no versículo 16 do mesmo capítulo. No capítulo 25 que relata o sepultamento de Abraão (A.S.) consta: “Isaac e Ismael, seus filhos, sepultaram-no… ( 25:9) e no versículo 12 deste mesmo capítulo: “Esta é a posteridade de Ismael, filho de Abraão…”
Poderíamos levantar como questão : Porque a afirmação de Ismael como filho de Abraão se o próprio texto anteriormente declarou “Isaac como o único filho de Abraão?” Por um sentido lógico e coerente poderia Ismael ser citado como “filho de Agar” ou simplesmente citado sem qualquer adjetivo que o ligasse a Abraão. O que nos parece mais que evidente é que dentre as muitas interpolações sofridas pelo texto no decorrer da história houve uma flagrante distorção das passagens para que se entendesse a sanção divina a uma exclusão do direito de primogenitura, eliminação da condição natural de filiação e por fim, a consagração de uma exclusividade da herança abraâmica ao povo judeu.
A QUESTÃO DO SACRIFÍCIO
Segundo o texto de Gênesis que chegou até nossos dias Deus teria provado a Abraão (A.S.) exigindo seu filho Isaac (A.S.) em sacrifício. Esta informação histórica é confrontada pelo Sagrado Alcorão onde Deus Altíssimo nos relata que a prova do sacrifício sucedeu quando Abraão (A.S.) possuía um filho apenas, Ismael (A.S.), e que depois dessa prova de fé Abraão (A.S.) recebeu a anunciação do nascimento de seu segundo filho, Isaac (A.S.). A ordem dos fatos apresentada no Sagrado Alcorão é a única que dá sentido a afirmação constante em Gênesis 22:2: “… toma teu único filho…” e essa é uma exigência da razão que só pode ser negada pelos ignaros ou pelos mal-intencionados desde que sabemos que Ismael (A.S.) segundo o mesmo texto de Gênesis, tinha 14 anos quando Isaac (A.S.) nasceu, por conseguinte, este jamais poderia Ter sido chamado por “único filho”. Ademais, a prova do sacrifício não teve qualquer relação com o concerto posterior em Isaac (A.S.), mas sim, com a aliança abraâmica (estabelecida e simbolizada pela circuncisão) ocorrida antes do nascimento de Isaac (A.S.), quando Abraão (A.S.) tinha 99 anos e Ismael (A.S.) 13.
A lógica a partir do entendimento do texto ou um apelo da coerência surge se aceitarmos a hipótese de que a anunciação de Isaac (A.S.) tenha ocorrido antes da prova do sacrifício. Ora, segundo o texto Deus anunciou a Abraão (A.S.) o nascimento de Isaac (A.S.) e teria acrescentado: “… farei o meu pacto com ele e com a sua descendência depois dele, por uma aliança eterna” (Gên. 19:19). Então, como Deus depois disso diria a Abraão (A.S.) para levar aquele filho para o sacrifício se tinha antes declarado que aquela criança geraria descendentes e que Ele (Deus) faria um concerto a partir dele e de seus descendentes? A contradição como vemos, é gritante e não pode ser negada. Todas as passagens que falam da anunciação de Isaac (A.S.) deixam claro que ele cresceria e teria filhos, como então Deus poderia testar Abraão (A.S.) se este já soubesse que a criança seria poupada? Portanto, concluímos que as reivindicações dos judeus de exclusividade na herança abraâmica se baseiam em flagrantes distorções no texto operadas no decorrer dos séculos por seus escribas e sacerdotes e que tais distorções e adulterações são refutadas pelas próprias contradições que se mantiveram no texto.
A título de exemplo, podemos citar entre muitas outras grosseiras manipulações do texto a caluniosa acusação contra Lot (A.S.). O texto afirma que os anjos o visitaram e o salvaram pela misericórdia de Deus da destruição de Sodoma (se o fizeram foi porque era temente e fiel a Deus). Como então, após ser salvo por não ter se corrompido pelos pecados hediondos daquela comunidade, Lot (A.S.) incorreria em tamanha corrupção moral ao ponto de deitar-se com suas duas filhas?
Teólogos cristãos honestos e de bom senso afirmam de modo peremptório que esta passagem constante em Gênesis 19:30 a 38 é uma clamorosa calúnia fabricada e incluída pelos escribas judeus com o claro objetivo de ofender os amonitas e moabitas descendentes das filhas de Lot (A.S.), inimigos históricos dos judeus. O próprio texto bíblico aprofunda a contradição e a farsa dessa passagem de Gênesis, no livro da Sabedoria cap. 10 v. 6: “Foi ela (a sabedoria) que livrou o justo que fugia dos ímpios que pereciam, quando desceu fogo sobre a petrópole.” Numa clara alusão a Lot (A.S.) e na 2a- epístola de Pedro c.2 v.7 “Se enfim, livrou o justo Lot oprimido pelas injúrias e pelo viver luxurioso desses infames (esse justo que habitava entre eles sentia, diariamente, sua alma atormentada, vendo e ouvindo suas obras iníquas)”. Assim, com o uso e o abuso da palavra humana os escribas e sacerdotes judeus manipularam e distorceram a palavra de inspiração divina sempre que esta não se conformava a suas pretensões, buscaram justificar os desvios da verdade e instigaram no seio de seu povo um idolátrico amor tribal e racial baseado numa falsa interpretação dos propósitos divinos estabelecidos no pacto abraâmico e no concerto de Isaac (A.S.) e Jacó (A.S.).
Parte 2 – A tradição Cristã e a herança abraâmica
A visão da cristandade sobre a herança abraâmica se desenvolveu de modo particular concomitante a um processo progressivo de afastamento do judaísmo. Basicamente, a tradição cristã desde seus primórdios reivindicou para si a herança natural da promessa interpretando como uma continuação lógica desse elo espiritual no ministério de Jesus (A.S.). Não obstante o caráter consideravelmente mais apurado e afinado com o propósito divino desse pacto, no que se refere a sua abrangência universal (contrária ao exclusivismo racial judaico) a reivindicação cristã também não é corretamente fundamentada. Na realidade, a argumentação cristã é mais produto de fatores históricos e dos embates teológicos e mesmo conflitos entre cristãos e judeus (no decorrer dos dois séculos subseqüentes a vida de Jesus (A.S.)) do que a aparente herança natural que se tornou crença corrente dos cristãos de nosso tempo.
O primeiro ponto a ser levado em conta é o fato de que a tradição cristã toma por base os mesmos documentos históricos dos judeus, os evangelhos canônicos e as epístolas da comunidade cristã ligada a Paulo e Pedro, toda essa base documental á luz das pesquisas históricas imparciais carece de confiabilidade. A inexistência de textos originais no que tange aos evangelhos canônicos, dos quais só há cópias de dois e três séculos após a ocorrência dos fatos e principalmente o caráter de proselitismo de crenças posteriores presente nas epístolas afirmam mais o triunfo de um grupo de seguidores sobre as crenças e práticas de outros que com o passar do tempo foram sendo calados enquanto outros escritos da época desapareciam, permanecendo por fim apenas a interpretação dos que venceram os embates teológicos da época.
Há uma íntima relação causal entre o processo de rompimento com o judaísmo e re–interpretação cristã do significado do pacto abraãmico. No ano 50 d.c. convocou-se um concílio em Jerusalém com o objetivo de solucionar os desentendimentos entre os que defendiam uma conformação da doutrina direcionada aos gentios e os judeus cristianizados que se opunham ao abandono da circuncisão e outros preceitos da lei. Nas décadas seguintes o cisma se aprofundou até um ponto insustentável. Os agrupamentos cristãos que naquele momento eram considerados como uma seita judaica (denominada genericamente de “nazarenos”) debatiam–se em múltiplas concepções relativas a doutrina e a fé e o grupo reunido a Paulo, devotado a conversão gentílica se destacou por sua radical rejeição da ortodoxia judaica. “Atos dos apóstolos” é um dos escritos desse período de conturbação, o afã de Paulo e de seus amanuenses em reiterar sua revisão doutrinária levou-os a amparar seus argumentos em fatos extraordinários e revelações pessoais, o que naturalmente tem sido sempre contestado por racionalistas que vêem nisso o flagrante desejo de Paulo de reivindicar para si o concurso divino na defesa de sua doutrina e ao mesmo tempo desqualificar seus opositores cristãos e judeus. De fato, a veracidade histórica desses acontecimentos extraordinários nunca pôde ser confirmada, seja pela escassez documentária da época ou pela simples razão de que os relatos dos agrupamentos cristãos que tinham crenças diferentes a de Paulo foram sendo destruídos e proscritos num processo que se estendeu até o concílio de Nicéia no séc. III d.c. onde centenas de escritos foram queimados e se decretou a pena capital para quem fosse pego de posse de um evangelho não autorizado. Como resultado, mais de um milhão de cristãos foram martirizados pela Igreja nos anos seguintes. A re–interpretação da doutrina que teve em Paulo seu maior propagador se fundamentava na necessidade de afastar “os elementos judaizantes” e apagar completamente os traços do judaísmo que pudessem ainda estar presentes entre os convertidos. Essa rejeição radical forma o essencial do que se encontra nos atos dos apóstolos e nas epístolas as igrejas, onde Paulo responde a seus opositores. E essa “nova doutrina” se encontra mais aperfeiçoada no tardio evangelho atribuído a João (composto por volta do ano 110 d.c.). Muitos estudiosos apontaram a dissonância entre os conceitos e a linguagem deste evangelho em relação aos outros três como uma prova de seu revisionismo muito posterior à verdadeira mensagem de Jesus (A.S.). Aqui ingressamos no delicado terreno da subjetividade da fé pessoal. Não pretendemos como os racionalistas, tratar se Paulo possuía ou não a autoridade espiritual que reivindicava, ou se essa autoridade lhe conferia o direito de re-interpretar e reformular os fundamentos do que havia sido revelado a Moisés (A.S.), ou mesmo falar em nome de Jesus (A.S.) a quem embora não tivesse conhecido, justificava sua autoridade em relação a sua doutrina por um direito de revelação pessoal.
O que pretendemos é analisar a coerência de sua doutrina com a doutrina trazida por Jesus (A.S.) no que se refere a uma provável re-interpretação da aliança abraâmica. Com respeito ao propósito de nossa análise encontramos formulações bastante claras dessa intenção de rompimento de um grupo que tornou-se majoritário entre os cristãos (especialmente após o ano 70) nas epístolas as igrejas. Rompimento este, que fazia surgir à necessidade de reformular certas crenças fundamentais herdadas da lei, as quais não poderiam ser simplesmente abandonadas sem uma argumentação racional que as redimensionasse na doutrina a que Paulo denominava de nova aliança ou plano universal de salvação.
A ALIANÇA E A HERANÇA ABRAÂMICA RE – INTERPRETADA
Segundo a argumentação tradicional cristã originada de Paulo a circuncisão por si só não constituiria senão um sinal exterior e o seu argumento pode ser considerado válido na medida que centra o objetivo da aliança na fé, isto é, de que de nada valeria a circuncisão da carne sem o elo interior (do coração). Contudo, esse argumento não nos parece suficiente para abolir a lei no sentido real. Uma lei estabelecida por Deus através de um profeta só poderia ser abolida por um outro profeta com a anuência de Deus; como se sabe, não há qualquer palavra atribuída a Jesus (A.S.) que aponte no sentido da abolição da circuncisão.
A essência da doutrina de Paulo se encontra nessa oposição primária que coloca a fé de um lado e a lei de outro . Como se a fé só fosse possível com o abandono da lei. Sua enfática e quase obsessiva negação da lei o leva em Romanos 4:15 a dizer: “Onde, pois, não há lei, não há transgressão”. O que é o mesmo que atribuir a Deus a transgressão do homem! Em Filipenses 3:2 se torna evidente a reformulação em relação ao significado da circuncisão e a forte animosidade aos chamados judaizantes: “Guardai-vos desses cães, guardai-vos desses maus obreiros, guardai-vos desses mutilados. Nós somos os verdadeiros circuncidados…” A oposição da fé a lei nasceu da mente de Paulo, não se apóia em qualquer ensinamento de Jesus(A.S.). Essa oposição se fez necessária em seu modo de ver para que a mensagem redentora chegasse aos gentios. E a mesma argumentação de um suposto conflito entre a fé a lei foi utilizada por Paulo e os seus seguidores para desconsiderar a proibição do alimento impuro (a carne suína, o animal sufocado, etc.).
O conceito da fé justificada por si mesma ainda que não seja errôneo não pode a nosso ver se considerado suficiente, posto que a lei divina é em si “a fé tornada efetiva” ou a “ fé tornada expressa”. O fato de que os judeus tivessem se tornado escravos do cumprimento convencional e externo da lei, e se tornado apóstatas em seus corações, não invalidaria a lei. Não obstante a afirmação de Jesus (A.S.) de que “veio para cumprir a lei e não para destruí-la” tenha sido freqüentemente objeto de interpretações capciosas que buscam ver nela “a abolição da lei” o que nos parece implícito nessa afirmação é justamente o contrário.
Na ausência de uma categórica abolição dos preceitos aqui referidos por parte do único que teria autoridade para fazê-lo, Jesus (A.S.), Paulo e seus seguidores recorreram a racionalizações filosóficas que foram transformadas em argumentos e com o passar do tempo em preceitos de fé e prática confundidos com o que Jesus (A.S.) ensinou a seus contemporâneos.
Com base nessa retórica da oposição da fé a lei a doutrina de Paulo tornou possível o rápido acesso ao mundo gentílico. As conseqüências desse crescimento seria sentido algumas décadas depois com um ainda maior afastamento da doutrina original dos cristãos primitivos.
O segundo ponto, ainda mais importante dessa re-interpretação das crenças fundamentais que compunham o cerne da fé judaica foi a nova perspectiva concernente a herança abraâmica propriamente dita. O reducionismo da doutrina paulina interpretou prontamente a crença na crucificação de Jesus ( crença que naquele momento não era aceita pela maioria dos cristãos) como o símbolo máximo da nova aliança. Em Efésios 2:13 a 16 Paulo sintetiza sua doutrina da “libertação do jugo da lei” e de simultânea “herança da promessa” no sacrifício da cruz. Conhecedor hábil dos textos da lei e dos profetas interpretou certas passagens dando a elas o sentido de predestinação ao martírio do Messias (A.S.), ainda que muitos dos agrupamentos cristãos da época simplesmente negassem a crucificação de Jesus (A.S.).
De qualquer maneira, a poderosa retórica de Paulo teceu essa associação entre o ministério de Jesus (A.S.) e o que ele chamava de nova aliança. Em Gálatas 4:22 a 31 Paulo expõe de modo alegórico o pacto abraâmico, tomando como exemplo figura de Ismael (A.S.) simbolizando a sinagoga (portanto cortada da promessa) e a figura de Isaac (A.S.) simbolizando a igreja “verdadeira herdeira da promessa de salvação.” Por mais que aparentemente esta argumentação seja lógica a primeira vista, na realidade, carece de concordância com o verdadeiro caráter da missão de Jesus (A.S.) e mais ainda, a doutrina de Paulo e de seus seguidores não obstante se pretendesse afirmar pela fé, se distanciava dos fundamentos desta mesma fé que pudessem ligá-los a Abraão, na condição de herdeiros de sua promessa.
Num sentido prático e corroborado pela própria história do cristianismo nos séculos seguintes, esta ruptura com o judaísmo, (que na verdade foi uma ruptura com a própria origem e a tradição semítica) promoveu o surgimento de um “novo cristianismo” matizado com o pensamento grego e latino e por fim essencialmente “ocidental”, o que explica, por exemplo, a figuração dos santos e anjos na igreja romana com caracteres europeus, cabelos loiros e olhos azuis. E como um resultado ainda mais significativo: a total desconexão com os preceitos atribuídos a Abraão (A.S.) (hoje, inteiramente desconhecidos pela maioria do cristãos) tais como a purificação ritual ou os preceitos com respeito a preparação dos mortos e de seu sepultamento, entre outros.
Esses preceitos abraâmicos foram abolidos pelos sacerdotes cristãos por serem considerados “judaizantes” e foram substituídos ao longo dos séculos por rituais de origem pagã assimilados pela Igreja ou por convenções e dogmas criadas em sucessivos concílios.
A REFUTAÇÃO A REIVINDICAÇÃO DA TRADIÇÃO CRISTÃ
A argumentação em que se fundamenta a reivindicação cristã da herança abraâmica ao que se chama por “nova aliança em Jesus” pela qual a promessa de salvação se tornaria universal encontra ao menos dois pontos de oposição ou contradição.
O primeiro deles reside nas próprias passagens dos evangelhos canônicos. O que se depreende desses textos é que Jesus (A.S.) jamais pretendeu dissociar-se do judaísmo ou fundar uma nova religião ou seita. Todo seu esforço de reconversão a verdade foi centrado nos judeus. Duas passagens bastante significativas deixam claro que seu ministério e seu plano de salvação eram restritos aos judeus. Mateus 10:5 a 7 “A estes doze enviou Jesus, depois de lhes Ter dado as instruções seguintes: Não vades para entre os gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos, ide às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Mateus 15 v. 24 “Eu não fui enviado senão as ovelhas desgarradas da Casa de Israel” Pretende-se argumentar contra essas afirmações citando passagens como a constante no final do livro de Mateus (28:19) “Ide e pregai a todas as gentes…” Contudo, em nenhuma passagem há uma afirmação categórica atribuída a Jesus (A.S.) onde ele estabeleça sua missão como um abrangente plano de salvação, ou melhor, não há qualquer referência nominal aos gentios. Não dizemos com isso que a verdade em seu sentido mais amplo tenha sido negada a quem quer que seja; a misericórdia de Deus não é nunca foi excludente como os judeus a compreendem. O que estamos a dizer é que a interpretação de um plano de salvação universal personificado com o advento de Jesus (A.S.) não corresponde a suas próprias palavras e o caráter de sua missão.
Qualquer análise dos textos deve considerar o contexto histórico e cultural em que foram escritos e dos fatos que estão a relatar. Este princípio de análise freqüentemente é negligenciado de modo a generalizar o sentido das passagens o que resulta no reducionismo literal no qual os teólogos cristãos se baseiam para dar as palavras o sentido que lhes pareça conveniente. O “mundo”, por exemplo.a que Jesus (A.S.) se referia poderia ser a sociedade em que se encontrava inserido (o âmbito judaico). Não nos é possível extrair de um escrito com as características dos evangelhos atribuídos aos seguidores de Jesus (A.S.) a conotação precisa que tenha sido dada a uma afirmação. Mesmo que tivéssemos os textos originais (em seu idioma original) o que não é o caso, precisar a conotação correta de todas as passagens seria muito difícil. Apenas na tradução para o português, João Ferreira de Almeida computou no novo testamento mais de 2.000 incorreções nas traduções existentes.
O que nos é possível é supor que em razão da disposição apostólica dos primeiros seguidores em levar a mensagem de Jesus (A.S.) a frente, havia uma orientação dele nesse sentido. O que não é o mesmo que dizer que o método e a doutrina de Paulo correspondiam as instruções de Jesus (A.S.) a Pedro e os demais que o conheceram. Pelo que constatamos por essa análise histórica podemos dizer que não. Aceitemos como hipótese, que Pedro e os seguidores mais próximos de Jesus (A.S.) se empenharam na propagação de sua mensagem e aceitaram a colaboração de Paulo que se demonstrou valiosa. E quando este começou a reinterpretar a doutrina de Jesus (A.S.) a seu modo, uns se afastaram como Barnabé, e outros preferiram se calar em vista dos bons resultados de sua pregação. Até que os adeptos da doutrina paulina tornaram-se majoritários e não podiam mais ser contestados.
O segundo ponto de contradição na reivindicação dos cristãos sobre a herança abraâmica se encontra na própria base da argumentação de Paulo: a fé. Se é possível aceitar como verídico o fato de que os cristãos primitivos, ou os seguidores de Jesus (A.S.) contemporâneos a ele em sua maioria e os primeiros agrupamentos dispersos existentes nas primeiras décadas realmente professavam uma fé monoteísta absolutamente concordante com a fé de Abraão (A.S.), de Moisés (A.S.) e de Jesus (A.S.) o mesmo não se pode dizer de Paulo e seus seguidores e por extensão os cristãos modernos. O sentido de “fé” referido aqui é o conjunto de fundamentos que compõem a doutrina; e destes o fundamento monoteísta é o primeiro e mais importante. O monoteísmo estrito de Abraão (A.S.), Moisés (A.S.) e de Jesus (A.S.) possui uma clara distinção entre Criador e Criatura, não compartilha nem relativiza os Atributos Divinos (Exclusivos de Deus) com qualquer ser. Por exemplo, não atribui a Criação do Universo a ninguém mais senão a Deus; e principalmente não associa a Deus ser algum, anjo, homem, ou profeta. Logo, a doutrina da trindade que se desenvolveu a partir das argumentações filosóficas pagãs que se introduziram pouco a pouco no pensamento cristão é uma evidente distorção desse Monoteísmo Original (doutrina que só se tornou plenamente aceita por imposição da igreja no século III d.c.).
A deificação de Jesus (A.S.) propagada inicialmente por Paulo e a salvação por meio da “fé na redenção pelo sangue” não correspondem a qualquer fundamento do monoteísmo pregado pelo próprio Jesus (A.S.). Segundo os mesmos textos que os cristãos afirmam ser fidedignos, quando perguntado como se alcançaria a vida eterna Jesus (A.S.) respondeu para que se “guardasse os mandamentos e seguisse os seus ensinamentos” (Lucas 18:18 a 22) e não disse: “o meu sangue lavará os pecados e comprará a salvação” como Paulo preconizava.
Na mesma passagem e em muitas outras Jesus (A.S.) fez uma perfeita distinção entre sua pessoa e Deus. Quando o interlocutor o chamou de “Bom mestre” Jesus (A.S.) respondeu: “Por que me chamas de bom? Ninguém é bom senão só Deus.”
A doutrina da trindade não é afirmada por Jesus (A.S.) em nenhuma passagem dos evangelhos canônicos. Pretendeu-se deduzi-la a partir de passagens onde o Messias (A.S.) reitera sua autoridade conferida por Deus, porém, a autoridade nesses termos é em si, uma das atribuições de um enviado de Deus de seu galardão em sua determinada época para anunciar sua boa nova e ser seguido por aqueles a quem foi enviado.
Neste contexto Jesus (A.S.) foi o salvador do povo judeu, o único que poderia tirá-los das trevas da ignorância e do erro em que se encontravam. Para aquele povo nem a lei, nem a aliança de Israel seria suficiente ou útil para a salvação. Baseados em conjecturas e na pregação “inovadora” de Paulo os teólogos dos primeiros dois séculos se debateram sobre a natureza humana ou divina de Jesus (A.S.) e o conceito de Logos (pre-existência), conceito filosófico do pensamento grego re-interpretou o significado da palavra “Verbo” no tardio evangelho atribuído a João. Tudo isso resultou numa doutrina contraditória aos fundamentos do Monoteísmo que os primeiros cristãos receberam do próprio Jesus (A.S.).
Porquanto a reivindicação de uma herança abraâmica pela fé não se sustenta por argumentos lógicos na medida que o que os cristãos de nossos dias assumem como “fé” está muito longe da fé original monoteísta anunciada por Abraão (A.S.), Moisés (A.S.), Jesus (A.S.) e todos os demais profetas da Casa de Israel (A.S.).
PARTE 3 – O Islam e a herança abraâmica
A reivindicação do Islam à herança abraâmica tem por base o próprio Alcorão que em diversas passagens detalha a missão do Profeta Abraão (A.S.) e o verdadeiro significado da promessa redentora. Antes de analisarmos algumas dessas passagens, devemos ressaltar que ao contrário das escrituras nas quais judeus e cristãos fundamentam sua argumentação sobre essa questão, o texto alcorânico está inteiramente preservado em sua forma e idioma original e este fato, bem como o de sua redação ainda na época de sua revelação, são aceitos de modo unânime pelos estudiosos. Mesmo os mais ferrenhos opositores do Islam são forçados a reconhecer que as sólidas evidências históricas sobre a incorruptibilidade do texto não dão margem as mesmas dúvidas que pairam sobre as escrituras anteriores.
A NATUREZA DA PROMESSA REDENTORA
O que se evidencia em todos os versículos do Sagrado Alcorão e está plenamente afirmado na própria essência dessa divina mensagem é que sendo a justiça um dos atributos divinos de Deus, Exaltado Seja, nada em suas palavras e ações é injusto ou imperfeito. Assim, está sua Mensagem isenta de toda contradição ou condição imposta pelas paixões humanas.
Diz Deus o Altíssimo em seu livro iluminado: “E QUANDO SEU SENHOR PÔS A PROVA ABRAÃO COM CERTOS MANDAMENTOS, QUE ELE OBSERVOU, DISSE-LHE: “DESIGNARTE-EI IMAM DOS HUMANOS”. ABRAÃO PERGUNTOU: E TAMBÉM O SERÃO OS MEUS DESCENDENTES?RESPONDEU-LHE: “MINHA PROMESSA NÃO ALCANÇARÁ OS INÍQUOS.” (ALCORÃO 2;124)
Destacam-se dois importantes pontos neste versículo sagrado:
1 – A escolha de Abraão (A.S.) como patriarca e guia espiritual dos homens, ou seja, modelo de fé que orientaria o plano divino em sucessivas revelações para a redenção do gênero humano.
2 – A promessa redentora não se condicionava a qualquer imunidade ou exclusividade racial, mas sim, a um elo de fé, justiça e retidão, de modo que “não incluiria os iníquos”.
Esse elo espiritual de fé, justiça e retidão é universalizado, extensivo a todos os humanos e a natureza da graça concedida a Abraão (A.S.) em relação a sua descendência são declarados nos seguintes versículos sagrados: “OS FIÉIS QUE NÃO OBSCURECEREM A SUA FÉ COM INJUSTIÇAS , OBTERÃO A SEGURANÇA (ESPIRITUAL) E SERÃO ILUMINADOS. TAL FOI O NOSSO ARGUMENTO QUE PROPORCIONAMOS A ABRAÃO CONTRA SEU POVO, PORQUE O ELEVAMOS A DIGNIDADE DE QUEM NOS APRAZ . TEU SENHOR É PRUDENTE E SAPIENTÍSSIMO. AGRACIAMO-LO COM ISAAC E JACÓ, QUE ILUMINAMOS COMO HAVÍAMOS ILUMINADO ANTERIORMENTE NOÉ E SUA DESCENDÊNCIA, DAVI E SALOMÃO, JÓ E JOSÉ, MOISÉS E ARÃO. ASSIM RECOMPENSAMOS OS BENFEITORES. E ZACARIAS, YAHIA (JOÃO), JESUS E ELIAS, POIS TODOS SE CONTAVAM ENTRE OS VIRTUOSOS. E ISMAEL, ELISEU, JONAS E LOT, CADA UM DOS QUAIS PREFERIMOS SOBRE OS SEUS CONTEMPORÂNEOS. E ALGUNS DE SEUS PAIS, PROGENITORES E IRMÃOS, ELEGEMO-LOS E OS ENCAMINHAMOS A SENDA RETA.” ( ALCORÃO 6: 82 A 87)
Tal como está explícito nos versículos acima, de nenhum modo a promessa estava condicionada também a qualquer tipo de exclusão prévia sobre um ou outro ramo da linhagem de Abraão (A.S.). Se o pertencer a sua linhagem não era por si só condição natural para participar da promessa, pelo mesmo fundamento da justiça divina, Deus altíssimo não excluiria previamente nenhum de seus filhos o que seria o mesmo que contrariar esse fundamento. Diz o Sagrado Alcorão: “Ó SENHOR MEU AGRACIA-ME COM UM FILHO QUE FIGURE ENTRE OS VIRTUOSOS! E LHE ANUNCIAMOS O NASCIMENTO DE UMA CRIANÇA (ISMAEL) QUE SERIA DÓCIL.” (37:100/101) “E MENCIONA NO LIVRO, ISMAEL, PORQUE FOI LEAL AS SUAS PROMESSAS , FOI UM MENSAGEIRO E PROFETA.” (19:54)
O nome Ismael significa “Deus ouve” isto é, a prece de Abraão (A.S.) foi ouvida e Deus, Exaltado Seja, o agraciou com um filho virtuoso e profeta. Como acaso, poderia ser excluído da promessa redentora? Não há contradição na justiça divina e nem imperfeição em sua misericórdia! Como é sabido e está também relatado no livro de Gênesis tal como chegou até nós, Abraão (A.S.) tinha 86 anos quando nasceu seu primeiro filho , Ismael (A.S.) e 100 anos quando nasceu seu segundo filho, Isaac (A.S.). Neste espaço de quatorze anos, Abraão (A.S.) e Ismael (A.S.) cumpriram as ordens de Deus relativas a fundação da Caaba no solo sagrado do vale de Meca e foram–lhes detalhados os rituais da Peregrinação (Hajj). Diz o Sagrado Alcorão: “E QUANDO ESTABELECEMOS A CASA (CAABA) , PARA CONGRESSO E LOCAL DE SEGURANÇA PARA OS HUMANOS: “ ADOTAI A ESTÂNCIA DE ABRAÃO POR SANTUÁRIO”, E ESTIPULAMOS A ABRAÃO E A ISMAEL, DIZENDO-LHES: PURIFICAI MINHA CASA , PARA OS CIRCUNDANTES, OS RETRAÍDOS, OS GENUFLEXOS E OS QUE SE PROSTRAM.” (2:125) (OBS. As quatro modalidades de práticas citadas no final do versículo se referem a quatro dos rituais a serem cumpridos pelos peregrinos, o circundar a Ca’aba, a retirada para a contemplação, a genuflexão e a prostração que compõem a prece ritual).
“E QUANDO ABRAÃO E ISMAEL ERGUERAM OS ALICERCES DA CASA, EXCLAMARAM: “Ó SENHOR NOSSO, ACEITA-A DE NÓS POIS TU TUDO OUVE E TUDO SABE. Ó SENHOR NOSSO, PERMITE QUE NOS SUBMETAMOS A TI E QUE SURJA , DE NOSSA DESCENDÊNCIA, UMA NAÇÃO SUBMISSA A TUA VONTADE. ENSINA-NOS NOSSOS RITOS E ABSOLVE-NOS , POIS TU ÉS REMISSÓRIO, Ó MISERICORDIOSÍSSIMO.” ( 2: 127 E 128)
A oração de Abraão (A.S.) e Ismael (A.S.), dois profetas sobre seus descendentes é uma prova de que a benção da promessa redentora seria inclusiva e abrangente a toda descendência de Abraão (A.S.), o ramo de Ismael (A.S.) e o ramo de Isaac (A.S.) que ainda não tinha nascido. Com a única condição estabelecida por Deus de que a promessa e a benção se destinaria aos fiéis e tementes dentre eles, os que se mantivessem leais ao compromisso de Abraão (A.S.) e as diretrizes do monoteísmo.
Desde que a profecia e a luz da orientação divina seriam bênçãos derramadas por toda descendência de Abraão (A.S.) como um sinal da promessa de Deus para com ele, vemos no versículo seguinte a continuidade da prece de Abraão (A.S.) e de Ismael (A.S.): “Ó SENHOR NOSSO, FAZE SURGIR DENTRE ELES, UM MENSAGEIRO QUE LHES TRANSMITA AS TUAS LEIS E LHES ENSINE O LIVRO, A SABEDORIA, E OS PURIFIQUE , POIS TU ÉS O PODEROSO, O PRUDENTÍSSIMO.” (ALCORÃO 2:129)
Este é um pedido específico sobre o ramo de Ismael (A.S.) e o seu atendimento (posto que os apelos dos profetas são atendidos por Deus) foi cumprido com a vinda de Mohammad (S.A.A.S.), na linhagem de Abraão (A.S.) e Ismael (A.S.) e a revelação do Alcorão.
A PROVA DO SACRIFÍCIO E A ANUNCIAÇÃO DO NASCIMENTO DE ISAAC (A.S.)
Diz Deus Exaltado Seja no Sagrado Alcorão: “E QUANDO LHE CHEGOU A ADOLESCÊNCIA (DE ISMAEL), SEU PAI LHE DISSE: “Ó FILHO MEU, SONHEI QUE TE OFERECIA EM SACRIFÍCIO, QUE OPINAS? RESPONDEU-LHE: Ó MEU PAI, FAZE O QUE TE FOI ORDENADO! ENCONTTRAR-ME-ÁS, SE DEUS QUISER, ENTRE OS PERSEVERANTES! E QUANDO AMBOS ACEITARAM O DESÍGNIO E (ABRAÃO) PREPARAVA (SEU FILHO) PARA O SACRIFÍCIO. ENTÃO O CHAMAMOS: ABRAÃO, JÁ REALIZASTE A VISÃO! EM VERDADE ASSIM RECOMPENSAMOS OS BONDOSOS.
CERTAMENTE QUE ESTA FOI A VERDADEIRA PROVA. E O RESGATAMOS COM OUTRO SACRIFÍCIO IMPORTANTE E O FIZEMOS PASSAR PARA A POSTERIDADE. QUE A PAZ ESTEJA COM ABRAÃO. ASSIM RECOMPENSAMOS OS BENFEITORES, PORQUE FOI UM DOS NOSSOS SERVOS FIÉIS. E ENTÃO LHE ANUNCIAMOS ISAAC, O QUAL SERIA UM PROFETA ENTRE OS VIRTUOSOS.” (37:100 A 112)
Assim, Abraão (A.S.) foi agraciado em sua velhice uma Segunda vez, com o nascimento de Isaac (A.S.) de quem surgiria um segundo ramo igualmente abençoado de sua descendência. Diz o Sagrado Alcorão: “E O AGRACIAMOS COM ISAAC E JACÓ, COMO UM DOM ADICIONAL, E A TODOS FIZEMOS VIRTUOSOS” (21:72) “… AGRACIAMO-LO COM ISAAC E JACÓ, E DESIGNAMOS AMBOS COMO PROFETAS. E OS RECOMPENSAMOS COM A NOSSA MISERICÓRDIA, E LHES GARANTIMOS HONRA E UMA LÍNGUA VERAZ .” (19: 49 E 50)
Ainda que a benção abrangesse a todos os dois ramos igualmente, o plano divino, a vontade de Deus e o cumprimento de sua promessa se concretizaria por caminhos diferentes. À descendência de Ismael (A.S.) estava reservado o advento do selo profético que se destinaria a salvação de toda humanidade. E a descendência de Isaac (A.S.) seria escolhida entre as nações para o aperfeiçoamento das mensagens divinas sucessivas; e por esse motivo Deus altíssimo diz no Alcorão: “Ó ISRAELITAS, RECORDAI-VOS DAS MINHAS MERCÊS , COM AS QUAIS VOS AGRACIEI. CUMPRÍ O VOSSO COMPROMISSO, QUE CUMPRIREI O MEU COMPROMISSO,E TEMEI SOMENTE A MIM.” (2:40) “Ó ISRAELITAS, RECORDAI-VOS DAS MINHAS MERCÊS, COM AS QUAIS VOS AGRACIEI E DE QUE VOS PREFERI AOS VOSSOS CONTEMPORÂNEOS.” (2:47)
O sentido de compromisso ou aliança aqui é referido a um propósito superior estipulado entre Deus, Isaac (A.S.) e Jacó (A.S.), compromisso este renovado por Moisés (A.S.) com a revelação da Torá, e que como veremos adiante, não foi mantido pelo povo judeu.
A HERANÇA DA FÉ MONOTEÍSTA
Como já dissemos, a herança abraâmica está condicionada a preservação da fé original (monoteísta) e a fidelidade as diretrizes divinas. Diz o Altíssimo no Sagrado Alcorão: “E QUEM REJEITARIA O CREDO DE ABRAÃO, A NÃO SER O INSENSATO? JÁ O ESCOLHEMOS NESTE MUNDO, E NO OUTRO CONTAR-SE-Á ENTRE OS VIRTUOSOS. E QUANDO SEU SENHOR LHE DISSE: SUBMETE-TE A MIM! RESPONDEU: EIS QUE ME SUBMETO AO SENHOR DO UNIVERSO! ABRAÃO LEGOU ESTA CRENÇA AOS SEUS FILHOS, E JACÓ AOS SEUS, DIZENDO-LHES: Ó FILHOS MEUS, DEUS VOS LEGOU ESTA RELIGIÃO, APEGAI-VOS A ELA, E NÃO MORRAIS SENÃO COMO MUÇULMANOS (SUBMISSOS). ESTÁVEIS ACASO PRESENTES, QUANDO A MORTE SE APRESENTOU A JACÓ, QUE PERGUNTOU A SEUS FILHOS: QUE ADORAREIS APÓS A MINHA MORTE? RESPONDERAM: ADORAREMOS O TEU DEUS E O DE TEUS PAIS: ABRAÃO, ISMAEL E ISAAC; O DEUS ÚNICO, A QUEM NOS SUBMETEMOS. (2;130 A 133)
Com absoluta clareza a fé legada por Abraão (A.S.) à seus filhos e a seu neto Jacó (A.S.), a mesma que este legou a sua descendência. Enquanto a tradição judaico-cristã orientou-se para uma perspectiva de afastamento dessa origem, a mensagem revelada ao profeta Mohammad (S.A.A.S.) foi num certo sentido a retomada da essência e da origem. No decorrer da revelação do Alcorão, vários versículos se destinaram a esclarecer os judeus e os cristãos sobre suas divergências. Ambos naquela época buscavam se apoiar na sua origem abraâmica e eis que Deus Altíssimo revela no Sagrado Alcorão: “DISSERAM: SEDE JUDEUS OU CRISTÃOS, QUE ESTAREIS BEM GUIADOS . RESPONDE-LHES : QUAL ! SEGUIMOS O CREDO DE ABRAÃO, O MONOTEÍSTA, QUE JAMAIS SE CONTOU ENTRE OS POLITEÍSTAS. DIZEI: CREMOS EM DEUS, NO QUE NOS TEM SIDO REVELADO, NO QUE FOI REVELADO A ABRAÃO, A ISMAEL, A ISAAC, A JACÓ E AS TRIBOS ; NO QUE FOI CONCEDIDO A MOISÉS E A JESUS E NO QUE FOI DADO AOS MENSAGEIROS POR SEU SENHOR, NÃO FAZEMOS DISTINÇÃO ENTRE ELES E A ELE (DEUS) SOMOS MUÇULMANOS (SUBMISSOS).” (2:136) “PODEIS ACASO AFIRMAR QUE ABRAÃO, ISMAEL,ISAAC,JACÓ E AS TRIBOS ERAM JUDEUS OU CRISTÃOS ? ACASO SOIS MAIS SÁBIOS DO QUE DEUS O É ? HAVERÁ ALGUÉM MAIS INÍQUO DO QUE AQUELE QUE OCULTA UM TESTEMUNHO RECEBIDO DE DEUS ? SABEI QUE DEUS NÃO ESTÁ DESATENTO DO QUE FAZEIS . (2:140)
“ABRAÃO JAMAIS FOI JUDEU OU CRISTÃO, FOI OUTROSSIM, MONOTEÍSTA, MUÇULMANO E NUNCA SE CONTOU ENTRE OS POLITEÍSTAS. OS MAIS PRÓXIMOS DE ABRAÃO FORAM AQUELES QUE O SEGUIRAM, ASSIM COMO (O SÃO) ESTE PROFETA E OS QUE CRERAM; E DEUS É PROTETOR DOS FIÉIS.” (2: 67 68)
“E QUEM MELHOR PROFESSA A RELIGIÃO DO QUE QUEM SE SUBMETE A DEUS, É PRATICANTE DO BEM E SEGUE A CRENÇA DE ABRAÃO, O MONOTEÍSTA ? ( O PRÓPRIO) DEUS ELEGEU ABRAÃO POR FIEL AMIGO. ( 4:125)
Deus Altíssimo afirma de modo categórico a verdadeira natureza da fé professada e legada por Abraão (A.S.) distinguindo-a de tudo que judeus e cristãos tomaram como crença e que os dividiam num cisma insolúvel bem como os desvios que os levaram a diferentes formas de politeísmo.
PACTOS DE ISRAEL
Em diversas passagens do Sagrado Alcorão são mencionados os extravios que levaram Israel ao afastamento da senda reta ao longo de sua história. Diz Deus , Exaltado Seja, em seu Livro: “HAVÍAMOS ACEITO O COMPROMISSO DOS ISRAELITAS E LHES ENVIAMOS OS MENSAGEIROS. MAS CADA VEZ QUE UM MENSAGEIRO LHES ANUNCIAVA ALGO QUE NÃO SATISFAZIA SEUS INTERESSES , DESMENTIAM UNS E ASSASSINAVAM OUTROS. PRESSUPUNHAM QUE NENHUMA SEDIÇÃO RECAIRIA SOBRE ELES , E ENTÃO , TORNARAM-SE DELIBERADAMENTE CEGOS E SURDOS. NÃO OBSTANTE DEUS TE-LOS ABSOLVIDO, MUITOS DELES VOLTARAM À CEGUEIRA E À SURDEZ , MAS DEUS BEM VÊ TUDO O QUANTO FAZEM.” (5:70 E 71)
As muitas oportunidades em que o povo de Israel se rebelou contra Deus e seus profetas não obstante as muitas graças recebidas; e o seu apego a suas próprias paixões e a má intenção deliberada de muitos de seus sacerdotes e escribas adulterando e omitindo o que lhes havia sido revelado, tudo isso é mencionado no Livro de Deus. Por fim isso os conduziu a uma condição de afastamento da graça divina e de cegueira espiritual , da qual apenas uns poucos dentre eles , que permaneciam fiéis estariam incólumes. Diz Deus o altíssimo no Sagrado Alcorão: “OS DESCRENTES DENTRE OS ISRAELITAS, FORAM AMALDIÇOADOS PELA BOCA DE DAVI E POR JESUS FILHO DE MARIA, POR CAUSA DE SUA REBELDIA E PROFANAÇÃO.” (5:78)
COMPROMISSO DOS CRISTÃOS
A condição dos cristãos na época da revelação do Alcorão já possuía grandes similaridades com a de nossa época. A tradição cristã já se encontrava dividida entre diferentes correntes teológicas que se definiam “como herdeiros da igreja de Cristo” não obstante, as visíveis inovações doutrinárias, o poder cada vez maior dos clérigos e as profundas discórdias entre cristãos orientais e a igreja romana. Dos agrupamentos cristãos dos primeiros tempos pouco restava. Perseguidos pela igreja oficial do mesmo modo que tinham sido anteriormente pelos não-cristãos, muitos se refugiavam nas montanhas e cavernas, ou em eremitérios em lugares de difícil acesso em muitas localidades do oriente médio e do norte da África. Foi nesse estado de predominante dissensão que a missão do último Profeta (S.A.A.S.) se iniciou na península arábica e no decorrer das revelações diversos versículos tratavam da problemática dos que professavam a fé cristã. Diz Deus, Exaltado Seja no Sagrado Alcorão: “E TAMBÉM ACEITAMOS A PROMESSA DAQUELES QUE DISSERAM: SOMOS NARAZENOS (CRISTÃOS). PORÉM ESQUECERAM-SE DE GRANDE PARTE DO QUE LHES FOI ORDENADO, PELO QUE DISSEMINAMOS A INIMIZADE E O ÓDIO ENTRE ELES, ATÉ O DIA DA RESSURREIÇÃO. DEUS OS INTEIRARÁ ENTÃO, DO QUE COMETERAM.” (5:14)
“SÃO BLASFEMOS AQUELES QUE DIZEM: DEUS É O MESSIAS, FILHO DE MARIA, AINDA QUANDO O PRÓPRIO MESSIAS DISSE: Ó ISRAELITAS, ADORAI A DEUS, QUE É MEU SENHOR E VOSSO. A QUEM ATRIBUIR PARCEIROS A DEUS , SER-LHES-Á VEDADA A ENTRADA NO PARAÍSO E A SUA MORADA SERÁ O FOGO INFERNAL. OS INÍQUOS JAMAIS TERÃO SOCORREDORES. SÃO BLASFEMOS AQUELES QUE DIZEM : DEUS É UM DA TRINDADE! PORQUANTO NÃO EXISTE DIVINDADE ALGUMA ALÉM DO DEUS ÚNICO. SE NÃO DESISTIREM DE TUDO O QUANTO AFIRMAM, UM DOLOROSO CASTIGO AÇOITARÁ OS INCRÉDULOS ENTRE ELES.” (5:72 E 73)
“Ó ADEPTOS DO LIVRO, NÃO EXAGEREIS EM VOSSA CRENÇA E NÃO DIGAIS DE DEUS SENÃO A VERDADE. O MESSIAS, JESUS, FILHO DE MARIA, FOI UM MENSAGEIRO DE DEUS E SEU VERBO , COM O QUAL AGRACIOU MARIA POR INTERMÉDIO DE SEU ESPÍRITO. CREDE, POIS, EM DEUS E EM SEUS MENSAGEIROS E NÃO DIGAIS: TRINDADE. ABSTENDE-VOS DISSO QUE SERÁ MELHOR PARA VÓS; SABEIS QUE DEUS É UNO. GLORIFICADO SEJA! LONGE ESTÁ A HIPÓTESE DE TER TIDO UM FILHO. A ELE PERTENCE TUDO QUANTO HÁ NOS CÉUS E NA TERRA, E DEUS É MAIS DO QUE SUFICIENTE GUARDIÃO.” (4:171)
Dessa maneira ficavam detalhados os principais desvios que ao longo dos séculos surgiram no seio da cristandade. Haviam se esquecido dos fundamentos da mensagem de Jesus (A.S.) e se deixado influenciar por maus sábios e falsos mestres que distorceram a fé segundo suas próprias concepções. Esqueceram-se mesmo de passagens evidentes dos próprios textos que consideravam fiéis, textos como o atribuído a João que contradizendo-se é bem verdade apresentando o Verbo como “Deus” em algumas passagens e no entanto mencionando Jesus a dizer para M.Madalena no cap.20 v.17: “Vai a meus irmãos e dize-lhes que vou para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus.” O dogma da trindade é portanto apresentado claramente no Alcorão como uma blasfêmia contra Deus. Tal dogma jamais foi mencionado por qualquer dos profetas de Israel. E segundo o evangelho de Marcos, o próprio Jesus (A.S.) reafirmando o mandamento de Deus revelado a Moisés disse: “O primeiro de todos os mandamentos é este: “Ouve, Israel; o Senhor Nosso Deus é o único Senhor…” Grande parte dos cristãos também haviam se esquecido dos preceitos da justiça e da caridade e se devotavam ao amor mundano e seus sábios e sacerdotes se entregavam ao acúmulo de bens, a propagação de preceitos e crenças falsas e a perseguição aos virtuosos dentre eles. Desse modo, haviam em sua maioria se afastado da herança abraâmica tanto quanto os judeus. Diz Deus, Exaltado Seja, no Sagrado Alcorão: “TOMARAM POR SENHORES SEUS RABINOS E SEUS MONGES EM VEZ DE DEUS, ASSIM COMO FIZERAM COM O MESSIAS, FILHO DE MARIA, QUANDO NÃO LHES FOI ORDENADO ADORAR SENÃO A UM SÓ DEUS…” (9: 31)
A CONCLAMAÇÃO PROFÉTICA AOS POVOS DO LIVRO (JUDEUS E CRISTÃOS)
Por meio do Sagrado Alcorão, o Mensageiro de Deus (S.A.A.S) tinha também por missão conclamar os povos do Livro (judeus e cristãos) ao retorno a fé monoteísta original de Abraão (A.S.), a mesma que havia sido professada por Moisés (A.S.), por Jesus (A.S.) e todos os demais profetas e mensageiros. E a sua autoridade espiritual era confirmada pelo Sagrado Alcorão em concordância com as escrituras sagradas (originais) anteriores. Diz o Sagrado Alcorão: “AQUELES QUE SEGUEM O MENSAGEIRO, O PROFETA ILETRADO, O QUAL ENCONTRAM MENCIONADO EM SUA TORAH E NO EVANGELHO, O QUAL LHES RECOMENDA O BEM E LHES PROÍBE O ILÍCITO, PRESCREVE-LHES TODO O BEM E VEDA-LHES O IMPURO, ALIVIA-OS DOS SEUS FARDOS E LIVRA-OS DOS GRILHÕES QUE OS OPRIMEM. AQUELES QUE NELE CRERAM , HONRARAM-NO, DEFENDERAM-NO E SEGUIRAM A LUZ QUE COM ELE FOI ENVIADA , SÃO OS BEM – AVENTURADOS.” ( 7:157)
A mensagem deste versículo sagrado não nos deixa dúvida que as escrituras anteriores , na forma que existiam na época, ou pelo menos tal como eram conhecidas pelos sábios judeus e cristãos, continham claras indicações sobre a vinda de um último profeta. Se assim não fosse essa conclamação cairia prontamente em total descrédito. Ao contrário, os historiadores registram que muitos sábios judeus e cristãos abraçaram o Islam ao confirmarem os sinais da profecia que eram conhecedores e as evidências constantes em suas escrituras. Entretanto, devido às muitas alterações e adulterações sofridas por esses textos, podemos apenas conjecturar sobre os indícios dessa anunciação. Alguns estudiosos do tema sustentam que um desses indícios se encontra no texto atribuído a João, nos cap.14,15 e 16, onde Jesus (A.S.) anuncia a seus apóstolos a “vinda do Parácleto”. A palavra grega Paracleto que tem sido traduzida errôneamente nas bíblias mais modernas como “Espírito Santo” ou “espírito consolador” ou ainda “espírito de verdade” é na verdade, na língua falada por Jesus (A.S.), aramaico, Ahmadh, ou seja Ahmad em árabe (o nome do Profeta Mohammad). Seu significado literal, “o que trará o louvor” ou “o que traz o louvor.” Se considerarmos esse sentido e analisarmos o que está dito nos versículos 12 e 13 do cap. 16 de João constataremos uma evidente anunciação de um outro enviado: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não as podeis compreender agora. Quando vier, porém o Paracleto, ele vos guiará no caminho da verdade integral, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão por vir.” São evidentes as atribuições de um profeta e o trecho “não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido” é uma descrição perfeita do processo de revelação do Sagrado Alcorão ao Profeta Mohammad (S.A.A.S.). Portanto, o Livro de Deus, como selo das escrituras divinas falava igualmente aos povos do livro (judeus e cristãos): “DIZE-LHES: Ó ADEPTOS DO LIVRO, NÃO EXAGEREIS EM VOSSA CRENÇA, PROFANANDO A VERDADE, NEM SIGAIS O CAPRICHO DAQUELES QUE SE EXTRAVIARAM ANTERIORMENTE, DESVIARAM MUITOS OUTROS E SE DESVIARAM DA VERDADEIRA SENDA.” (5:77)
Todas as divergências teológicas entre judeus e cristãos foram esclarecidas pelo Sagrado Alcorão. As crenças infundadas que haviam se introduzido em ambos os grupos foram denunciadas pelo Livro de Deus. A reputação de Maria (A.S.) e do Messias (A.S.) foi exaltada pelos versículos sagrados em resposta às difamações e blasfêmias dos descrentes entre os judeus.
O CUMPRIMENTO DA PROMESSA REDENTORA A TODOS OS POVOS
O plano Divino de salvação universal estabelecido na promessa abraâmica executou-se ao longo dos séculos. A missão de Abraão (A.S.) na execução das ordens de Deus quanto ao estabelecimento do santuário (a Caaba), na disposição de sua descendência abençoada, Ismael (A.S.) e Isaac (A.S.), depois na revelação da Lei para Israel a Moisés (A.S.), na vinda do Messias (A.S.) com a boa nova (o Injil – Evangelho) e por fim no advento do último profeta, Mohammad (S.A.A.S.) e a revelação do Alcorão, selo dos livros sagrados, fechando o ciclo da profecia e dando início ao ciclo dos Imames de sua descendência (A.S.).
Em cada época Deus Altíssimo destinou um mensageiro e um livro a um povo específico; e cumpriu definitivamente sua promessa e atendendo a prece de Abraão (A.S.), enviando um Mensageiro destinado a todos os povos e nações. Tal como atesta o Sagrado Alcorão: “E NÃO TE ENVIAMOS ,SENÃO COMO MISERICÓRDIA PARA A HUMANIDADE.” (21:107)
“E NÃO TE ENVIAMOS SENÃO COMO (MENSAGEIRO) UNIVERSAL, ANUNCIADOR E ADMOESTADOR PARA OS HUMANOS…” (34:28)
Por meio de seu advento e da luz da orientação revelada a ele (o Livro de Deus) a promessa redentora tornou-se acessível a toda criatura até o final dos tempos, sendo esta a herança abraâmica e seus herdeiros são os que abraçam sua fé e se mantém fiéis a ela. Assim Deus esclarece os humanos e diz: “AQUELES QUE PRATICAREM O BEM , SEJAM HOMENS OU MULHERES E FOREM FIÉIS, ENTRARÃO NO PARAÍSO E NÃO SERÃO DEFRAUDADOS NO MÍNIMO QUE SEJA .” (4:124)
“AQUELES QUE RENEGAREM A ADORAÇÃO DO SEDUTOR (SATÃ) E SE VOLTAREM CONTRITOS A DEUS, OBTERÃO AS BOAS NOVAS, ANUNCIA POIS, AS BOAS NOVAS AOS MEUS SERVOS, QUE ESCUTAM AS PALAVRAS E SEGUEM O MELHOR (SIGNIFICADO) DELAS. SÃO AQUELES A QUEM DEUS ENCAMINHA E SÃO OS SENSATOS.” (39:18)
Em nenhuma das escrituras sagradas anteriores consta sequer indícios de que a Mensagem contida nelas tinha um apelo universal. Todos mensageiros e profetas de Israel dos quais Jesus (A.S.) cumpriu a promessa de Deus com a Casa de Israel na linhagem de Isaac (A.S.) de modo unânime dirigiram-se ao povo de sua época (especificamente aos israelitas). O chamado “Ó humanos…” só se encontra no Sagrado Alcorão repetido em um grande número de versículos, o que é prova da universalidade desta última mensagem e desse último Mensageiro. A graça e a misericórdia de Deus se torna pois, manifesta, não ao preço de algum sacrifício humano, como os cristãos de nossos dias alegam; nem tampouco garantida por uma mera condição racial, como os judeus reivindicam.
Graça e misericórdia ao alcance de todos que crerem e abraçarem o Islam (a submissão a Deus) e que se firmarem a verdade revelada adotando a crença original de Abraão (A.S.), de Moisés (A.S.), de Jesus (A.S.) e de todos os demais profetas (A.S.) e mensageiros (A.S.).
Graça e misericórdia ao alcance de quem renegar o erro e adotar o bem e a justiça em suas ações, respeitando os limites estabelecidos por Deus quanto ao lícito e o ilícito, isto é, renegar o sedutor (satã) e adorar somente a Deus.
Queira Deus, o Clemente, se apiedar de nós e nos guiar nessa senda, aceitar nosso arrependimento, apagar nossas culpas e aceitar nossas boas ações.                                                                        Apoie Médicos Sem Fronteiras 

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